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dezembro 08, 2005

Dorothy Stang I


dorothy stang de autor desconhecido

A missionária Dorothy Stang trabalhava há quatro décadas junto de pequenas comunidades no interior da Amazônia. No dia 12 de fevereiro de 2005, caminhava na mata, como sempre fazia, quando foi abordada. Parou, conversou, leu um trecho da Bíblia para os pistoleiros. Em seguida, foi fuzilada.

Passado quase um ano do crime, dois dos cinco acusados vão a julgamento.








Em quatro décadas trabalhando junto a pequenas comunidades no interior da Amazônia, a missionária americana Dorothy Stang tornou-se uma figura marcante – pela coragem, pela simpatia, pela eficiência da sua ação junto aos trabalhadores rurais, pela importância internacional de sua pregação em defesa do desenvolvimento sustentável e da reforma agrária. No dia 12 de fevereiro de 2005, um pistoleiro se infiltrou entre os trabalhadores e assassinou-a.

A freira naturalizada brasileira foi atingida pelas costas, com quatro tiros. Caminhava na mata quando foi abordada. Parou, conversou, leu um trecho da Bíblia para os pistoleiros. Em seguida, foi fuzilada.

Passado quase um ano do crime, dois dos cinco acusados vão a julgamento. Os pistoleiros Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, e Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, acusados de assassinar a freira, serão os primeiro a ir ao banco dos réus. Os fazendeiros Vitalmiro Bastos Moura e Regivaldo Pereira Galvão, acusados de encomendar o crime, e Amair Feijoli da Cunha, apontado como intermediário, devem ir a julgamento em 2006.


Em defesa dos camponeses
Em uma de suas últimas entrevistas, em novembro de 2004, a missionária americana afirmava que apesar das ameaças que vinha recebendo – desde 1999 ela aparecia em uma “lista negra” de fazendeiros e madeireiros da região de Anapu, no Pará, – não tinha medo. “Não quero fugir, nem abandonar a luta dos camponeses que vivem sem nenhuma proteção em plena selva”, afirmou. Em dezembro, recebeu o prêmio José Carlos Castro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e foi elogiada no Senado. Era referência na história da colonização amazônica. Também em 2004, recebeu o título de cidadã do Pará. Desde 1972, unida às mulheres e agricultores da comunidade Sucupira, ela desenvolvia projetos sustentáveis para geração de emprego e renda com reflorestamento em áreas degradadas. Queria reduzir os conflitos fundiários, mas chegou a ser acusada, em 2001, de instigar a violência. A morte da missionária foi a primeira de uma integrante da CPT no governo Lula.


Rayfran das Neves Sales, o Fogoió & Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo
Foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio triplamente qualificado e serão os primeiros a ir a júri popular. Se condenados, os pistoleiros poderão pegar entre 45 e 60 anos de prisão. Eles afirmam que Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, encomendou a morte de Dorothy, forneceu a arma e a munição, além da promessa de pagamento. O crime teria custado R$ 50 mil, mas eles não receberam o dinheiro.


A defesa
Os advogados dos pistoleiros pretendem defender no julgamento a tese de que foi a própria irmã Dorothy quem provocou sua morte. Segundo eles, a missionária americana seria inimiga declarada de fazendeiros, grileiros de terras e madeireiros da região e com isso teria atraído o ódio de todos. A tese será reforçada com antecedentes criminais da religiosa.


italmiro Bastos Moura, o Bida; Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão; Amair Feijoli da Cunha, o Tato
Os fazendeiros Vitalmiro Bastos Moura e Regivaldo Pereira Galvão são acusados de encomendar o crime. Amair Feijoli da Cunha é apontado como intermediário. Eles aguardam o julgamento de recursos que tramitam no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF) contra decisão da Justiça paraense de mandá-los a júri popular. Taradão também responde a processo na Justiça Federal por envolvimento nas fraudes contra a extinta Sudam. Bida é um grande criador de gado de corte em duas fazendas que ocupam área de 3 mil hectares, em Anapuã. Já foi apontado pelo Incra como grande grileiro, em relatório de inspeção feito pela autarquia. Indiciado pela polícia por homicídio qualificado pela morte da freira, Bida , segundo a polícia, um dos homens que fizeram fortuna com a prática de grilagem no Pará. Depois do crime, ele perdeu um dos três lotes, que foi repassado ao Incra para o assentamento de 90 famlias, que vivem na área onde a missionária foi assassinada.

Começa sexta-feira julgamento de matadores de irmã Dorothy
Fonte: Estado de São Paulo | Autor: Roldão Arruda | Data: 07 Dezembro de 2005 - 03h 37


Trancafiados numa mesma cela, no Presídio Estadual Metropolitano 3 (PEM3), em Santa Isabel, a 56 quilômetros de Belém, os dois homens acusados pelo assassinato da irmã Dorothy Stang passam os dias acuados por um profundo medo. Não do julgamento oficial, previsto para este fim de semana e para o qual devem ser mobilizadas organizações de direitos humanos de todo o Brasil e do exterior, mas dos outros presos. Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, e Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, temem ser mortos.

Eles raramente saem da cela, num pavimento acima daquele onde ficam os outros presos. Só vão para o banho de sol, ao qual todo detento tem direito durante uma hora e meia por dia, depois de certificarem-se de que os corredores e o pátio estão vazios. Também precisam de horários especiais para os chuveiros. Tomam o café da manhã, almoçam e jantam debaixo de trancas, confiantes na afirmação das autoridades de que a comida deles é feita à parte. Para evitar envenenamento.

Não é um medo infundado. Pelo código de leis próprias que rege a vida nos presídios, o assassinato da religiosa, uma senhora de 73 anos, é uma espécie de crime hediondo e sem perdão. Assim como o estupro e a violência contra crianças.

O crime ocorreu em 12 de fevereiro, numa estradinha vicinal de Anapu, no sudoeste do Pará. Eduardo e Fogoió foram presos em seguida e levados para Altamira. De lá, foram transferidos para o PEM3, espécie de presídio de segurança máxima, no qual os detentos não têm acesso a celulares, TV, rádio nem a livros. Só à Bíblia.

Os assassinos confessos da irmã foram postos numa cela especial, com Amair Feijoli da Cunha, o Tato, um dos três fazendeiros acusados de terem contratado os serviços dos dois. Os outros acusados de serem mandantes do crime, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, estão em outro presídio da região metropolitana. O julgamento dos pistoleiros começa sexta-feira, enquanto o dos fazendeiros não está marcado.

Ontem, o Estado tentou ouvir os dois. Fogoió, por orientação de seu advogado, não quis falar. Apareceu por alguns instantes na ala de recepção do presídio, mas depois se recolheu. Eduardo, acompanhado pela defensora pública que cuida de seu caso, concordou em falar. Ele tem 31 anos, aparência robusta, com 58 quilos e 1m65 de altura, e tatuagens nos dois braços. As mãos de pele fina não lembram alguém que trabalha desde os 7 anos na roça, como ele conta. "Elas estão assim porque eu estou há nove meses na cadeia, sem trabalhar", diz.

Desde que foi preso, nunca recebeu visita amiga: de parentes, amigos, nem de conhecidos. "Só Deus é que me sustenta nessa hora", diz o acusado, que começou a ler a Bíblia. Segundo a advogada, a ausência de familiares ocorre porque eles são pobres, sem recursos para sair lá do interior do Espírito de Santo, de onde Clodoaldo zarpou, em 2004, a pedido de seu patrão, o fazendeiro Amair, e foi bater no sudoeste do Pará.

Ele contou ontem que seu pai resolveu dá-lo para uma família de conhecidos quando tinha apenas 7 anos, alegando que não tinha condições de criá-lo. Cresceu entre estranhos. Mais tarde soube que o pai tinha sido assassinado e que o assassino vivia solto: "Eu cresci olhando para a cara do homem que matou ele. Se eu fosse um homem violento, teria matado. Mas não sou. Não matei a irmã Dorothy. Nunca matei ninguém." Uma das pessoas que o acusaram de ter participado do crime foi o próprio Fogoió. "Mas não é verdade. Eu estava ali porque ia para o trabalho."




Especial: Até a próxima morte
Após assassinato da freira Dorothy,governo se mexe, mas política
agrária sofre críticas

Fonte: Revista Isto É | Autor: Mino Pedrosa e Ronaldo Brasiliense
Anapu (PA) | Colaborou: Florência Costa

Os seis tiros que ceifaram a vida da freira americana naturalizada brasileira Dorothy Mae Stang, 73 anos, na manhã do sábado 12, em Anapu, no sudoeste do Pará, expuseram a fragilidade da política agrária do governo Lula. O assassinato da missionária é fruto também da impunidade nos crimes em conflitos de terras. A ausência da Justiça já transformou em tradição no País e funciona como combustível para a violência que queima vidas no campo. Sob pressão internacional, o governo foi forçado a promover a maior movimentação de tropas dos últimos anos para evitar uma nova guerra pela posse da terra na Amazônia. Pelo menos dois mil soldados foram deslocados de batalhões de Belém, Manaus e Marabá para a região, a 680 quilômetros da capital paraense. Um grande aparato policial foi montado para caçar em plena selva amazônica quatro suspeitos do assassinato: o mandante, um intermediário e dois pistoleiros.

Apontado como mandante, o “fazendeiro” Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, foragido, está sob a proteção do verdadeiro grileiro das terras: Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, um velho conhecido da Polícia Federal. Ele chegou a ser preso no escândalo da Sudam, acusado de desviar mais de R$ 1,2 bilhão de incentivos fiscais para projetos fraudulentos, mas foi libertado e continua com sua carreira de golpes em Altamira, na região da rodovia Transamazônica, onde tem residência fixa. Vitalmiro nada mais é do que um “laranja” a serviço de mais uma fraude comandada por Regivaldo, grilando as terras da União, desta vez de olho no dinheiro fácil dos incentivos fiscais da Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA) sucessora da Sudam.

Antigo alvo
A irmã Dorothy estava na linha de tiro dos latifundiários da região há muitos anos. Mas os ânimos dos fazendeiros-madeireiros ficaram mais acirrados desde o fim de 2004, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) baixou uma portaria obrigando os donos de terra a se recadastrarem. O problema é que boa parte da área é de terra devoluta (pertencente à União). A medida do Incra fez com que dez mil proprietários tivessem seus títulos de terra suspensos. A onda de violência no Pará provocou várias reuniões no Planalto. Na quinta-feira 17, o presidente Lula reuniu seus principais colaboradores.

O governo anunciou a interdição de 8,2 milhões de hectares de florestas em terras da União junto à BR-163 (Cuiabá–Santarém): equivalente a quase o dobro da área do Estado do Rio de Janeiro. Outra decisão tomada na reunião foi a de instalar um gabinete provisório do governo federal na área. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, antecipou a criação de um parque nacional e de uma estação ecológica na região conflitada; o Incra assegurou que 140 mil hectares de terras do Projeto de Desenvolvimento Sustentável defendido pela missionária Dorothy seriam regularizados a curto prazo; a Polícia Federal, no Tocantins, prendeu 14 grileiros na operação Terra Nostra. O governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), comunicou que em poucos dias a Assembléia Legislativa votará o projeto de reordenamento fundiário, transformando em unidades de conservação 63% do território paraense.

Quando o líder seringueiro Chico Mendes foi assassinado em 1988, em Xapuri (Acre), o governo criou a reserva extrativista que leva seu nome, com 960 mil hectares, e liberou recursos extras para reforma agrária e de combate aos desmatamentos na Amazônia. A história se repete: a cada assassinato a reação do governo vem rápida, com ações espetaculosas para justificar a ineficiência dos sucessivos projetos de reforma agrária. A falta de projeto não inibe a política de extermínio de líderes sindicais e religiosos.

A missionária não contava com proteção policial – que ela recusava. “Ninguém vai gastar uma bala numa velha como eu”, acreditava. Para os grileiros, irmã Dorothy era “terrorista”. Mas os trabalhadores rurais a chamavam de o “Anjo da Transamazônica”. Sua morte, após uma noite mal dormida num barraco coberto de palha de apenas 1,7 metro de altura, alcançou repercussão internacional só comparável à que ocorreu com a morte de Chico Mendes. Na pasta amarela que carregava dentro da bolsa a tiracolo no momento em que foi assassinada numa estrada de terra aberta em meio a floresta, a 47 quilômetros de Anapu, irmã Dorothy deixou para a polícia mais do que indícios para apontar seus executores: dois documentos oficiais, autos de infração, com multas de R$ 3 milhões, expedidos pelo Ibama contra Vitalmiro, apontado pela polícia como o mandante do assassinato, por ter desmatado ilegalmente uma área de dois mil hectares no assentamento Esperança, menina-dos-olhos de irmã Dorothy. Segundo a polícia, Vitalmiro teria acertado com Amair Feijoli da Cunha, o Tato, a contratação dos pistoleiros que mataram a religiosa.


A morte de Dorothy causou grande comoção. No enterro da missionária, duas mil pessoas gritavam por justiça e pediam o fim da impunidade. Sob pressão, o governo mandou o Exército para caçar os acusados, como Vitalmiro.

























Fotos: Adeus a Dorothy (Autor Desconhecido)


Publicado por Ana Tropicana às dezembro 8, 2005 12:09 PM

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