« República de Pirlimpinpin | Entrada | Frase do Dia »
outubro 06, 2005
«Escuto!»
Quase 16h, em Lisboa. O MSN pisca: apesar de descrente e desavisado, desenganado que andava. Pisca! - primeiro contacto, desde 23 de Setembro. Breve, fugaz, telegráfico. E este alívio inexplicável de saber todos de volta a Tabatinga. A salvo, portanto. Outra vez. Mais uma vez. Grácias !!...
Não, na Praça do Velho Império, nem em sonho se suspeita do lado inóspito do paraíso. Aqui vinga o imaginário, o panfleto turítico pintado a cores garridas, vendido a peso de ouro com odores de exótico. Aqui ninguém suspeita de agruras e privações outras, ninguém se aproxima (nem por raspão) dos riscos e dos espinhos, desse peso ralo que o conceito europeu de "pessoa" por lá tem, do frágil e precário valor da vida humana, de frente para a goela exuberante da natureza implacável e excessiva. Sempre. Em tudo. Em todos os momentos e em todas as coisas. Ali: à mercê da força impune dos senhores das terras sem lei, dos caprichos e interesses de déspotas e caciques, do revés do medo das tribos em fuga, acossadas e tímidas, oscilando entre a imprevisibilidade da submissão ou da raiva, famintas de uma paz, ora feita de brandos sossegos, ora de teimosas vinganças, do passo das tribos divididas entre o recuo para dentro das entranhas da floresta e o avanço altivo pelos barrancos do rio. Não, aqui «aventura» é coisa outra. Em Lisboa não se sabe, não se sonha. Em Brasília também não (muito pouco, quase nada!). Nem em Manaus se imagina. Sabe quem se atreve mais adiante que só às portas da Grande Mata. Sabe que mesmo entre fronteiras responde sozinho: sem nenhum governo que lhe valha, que se importe, que se lembre, que se responsabilize. Sabe que segue só. Por sua única conta e risco. Que depende unica e simplesmente de si: da destreza do corpo para suportar o calor, a humidade, as febres, o breu da noite, as feras guardadas na correnteza e na margem; e da agilidade do espírito para fazer trocas, propor negócios e firmar acordos. Não, aqui «aventura» é coisa outra, sim. Diferente (tão diferente!) das horas cruas que se acham nos confins. Lá: onde a vida vale pouco (tão pouco, quase nada!). Como eu sei que vale.

Foto: Rua Abaixo [Porto de Tabatinga - 2004] (autor: Ana Tropicana)
«Canção de Macau» - Mafalda Veiga
Mil aromas enleados
Num calor que se abandona
Mil sabores emaranhados
Numa noite sempre longa
Noutras ilhas, noutro vento
Que é tão denso como lume
Navegando um sentimento
Uma faca de dois gumes
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Rumo incerto, mil palavras
O Oriente no olhar
Que desenha outro horizonte
Da paixão de desvendar
A neblina dos sentidos
A nudez do amor de alguém
E aquilo que se sente
Que não é de mais ninguém
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Publicado por Ana Tropicana às outubro 6, 2005 05:08 PM
Comentários
uma das músicas do meu coração
Publicado por: miguel às janeiro 26, 2006 07:47 PM
