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setembro 28, 2005

Ainda o Rio Tietê...

Ocorreu-me que, em tupi, «tietê» quer dizer «águas boas» (irónico, é um facto!). E depois veio-me à cabeça o verso, mas não estou certa de haver relação entre estes dois assomos.

«Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar…»




A meditação sobre o Tietê


É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oleosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O óleo das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cênticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oleosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.


Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?…
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio meu rio!…

[…]

Mário de Andrade - Poesias Completas. 3ª edição. São Paulo: Martins, INL, 1972.




(E já agora, fazendo o historial do rio... )



O Rio Tietê teve grande importância na história de São Paulo, permitindo a interiorização da colonização, ampliando os limites da América portuguesa. Também chamado no passado de Rio Grande e Anhembi ou Anhambi, o Rio Tietê, o maior do planalto, com 1.136 quilômetros de extensão, é um rio muito sinuoso, com uma longa série de corredeiras e cachoeiras, e recebe um grande número de afluentes.

O rio nasce na cidade de Salesópolis, em São Paulo, na cadeia montanhosa da Serra do Mar, a mil metros de altitude e a 22 quilómetros do Oceano Atlântico. Contrariando o curso da maioria dos rios, ele corre para o interior do estado, atravessando a cidade. Essas características fazem com que as suas águas só desemboquem no mar depois de percorrerem 3.500 quilômetros, nos quais se encontram com o Rio Paraná, divisa do Mato Grosso do Sul, e chegam até o Rio da Prata. Com tal percurso, o Rio Tietê tornou-se um dos mais importantes para a expansão territorial do país.

Desde o século XVI, índios, jesuítas e bandeirantes, os "conquistadores do sertão", navegavam pelo Tietê à procura de índios, para utilizar como mão-de-obra escrava, e de ouro.

No início do século XVIII, intensificou-se a navegação fluvial pelo Tietê com a descoberta das minas de Cuiabá.


"Logo que soube-se em São Paulo das descobertas que Pascoal e seus companheiros tinham feito nas circunjacências de Cuiabá", escreveu o brigadeiro Machado de Oliveira, "moços e velhos dispuseram-se a partir para ali, em procura de riquezas que sua cobiça elevara a um ponto desmesurado; e dentro de poucos dias puseram-se a caminho, divididos em grupos que seguiam uns após outros, embarcando no Tietê, e navegando este e outros rios que vão ter ao Cuiabá."

Além dos povoadores que partiam para tentar a sorte nas minas, as frotas de comércio, também conhecidas como "monções", deram especial relevo ao Rio Tietê. Canoas com armas, sal, escravos, vinho, azeite, aguardente e artigos manufaturados abasteciam os moradores de Cuiabá.

As monções partiam de Porto Feliz, desciam normalmente o Tietê até a foz, seguiam o curso do actual Paraná, entravam por um dos seus afluentes, em geral o Pardo e depois subiam o Anhanduí-Guaçu até chegar ao Rio Paraguai. De lá alcançavam o São Lourenço e, finalmente, o Cuiabá. Porém, muitas das frotas sofreram ataques dos índios que transitavam pela região.

A abertura de novas estradas terrestres e a perspectiva de um comércio mais lucrativo reduziram as viagens fluviais pelo Tietê. Sabe-se que as últimas ocorreram por volta de 1838, quando uma epidemia de febre tifóide se alastrou pelas margens do rio, deixando poucos sobreviventes.

No início do século XX, o Rio Tietê era um dos locais de lazer preferidos dos paulistanos: piquenique, natação, pesca e desportos aquáticos. Às suas margens, estabeleceram-se três clubes de regatas: o Club Canottieri Esperia, formado pelos italianos, o São Paulo e o Tietê. O jornalista Thomaz Mazzoni recorda:


"A Ponte Grande se transformou em local de recreio para o paulistano, pois ali, à margem do Tietê, foram criados vários recreios para piqueniques, passeios de barco e restaurantes, entre os quais se destacava o Bella Venezia, freqüentado pelos italianos, que aos domingos se recreavam passeando de barco. Foi justamente um grupo desses rapazes que começou a incentivar a idéia da formação de um clube esportivo que teria, naturalmente como atividade, o remo e a canoagem: o Club Canottieri Esperia".
Mas esses clubes não durariam muito, devido à poluição das águas. Em 1930, 150 empresas já lançavam lixo no Rio Tietê. A publicação A Capital de São Paulo de 1933 traz um alerta: "Estes rios são pouco piscosos, talvez devido à barragem em Parnaíba e ao Salto de Itu. Os resíduos das fábricas e outros também concorrem para tornar o ambiente pouco favorável à vida dos peixes".

As actividades desportivas continuaram até a década de 1950, quando o Tietê se transformou no esgoto a céu aberto da cidade. Hoje em dia, são despejadas diariamente cerca de 134 toneladas de lixo inorgânico nas suas águas e o índice de oxigénio na água é zero. O Rio Tietê volta a dar sinais de vida somente depois da cidade de Salto.

Publicado por Ana Tropicana às setembro 28, 2005 01:57 AM

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